Portugal sabia que ia envelhecer, porque não se preparou?

(Nuno Marques, in Público, 22/08/2026)

Woman walking with a cane along a coastal promenade at sunset
Imagem gerada por IA

Envelhecer não é, em si mesmo, uma tragédia. O problema começa quando um país envelhece sem adaptar as suas políticas públicas à transformação demográfica que conhece de antemão.


Há problemas que surpreendem um país. E há outros que se anunciam durante décadas, crescem diante dos nossos olhos e, ainda assim, são tratados como se tivessem chegado ontem. O envelhecimento da população portuguesa pertence claramente à segunda categoria.

Foi, por isso, importante ouvir o Presidente da República, António José Seguro, chamar a atenção para uma realidade que há demasiado tempo deveria ocupar o centro do debate político: a falta de respostas para milhares de idosos e famílias que procuram condições dignas para envelhecer. Não estamos perante uma emergência imprevisível. Estamos perante o resultado de décadas sem visão e sem planeamento. Seguro alertou mesmo para uma “bomba-relógio” demográfica, sublinhando que a solidariedade da sociedade civil não pode substituir a responsabilidade primeira do Estado.

Envelhecer não é, em si mesmo, uma tragédia. Pelo contrário: viver mais é uma conquista social. O problema começa quando um país envelhece sem adaptar as suas políticas públicas à transformação demográfica que conhece de antemão.

Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da União Europeia (UE). Em 2025, 23,2% da população tinha 65 ou mais anos e a idade mediana atingia 47,3 anos, a segunda mais elevada da União, a par da Bulgária e apenas atrás de Itália. Em 20 anos, Portugal foi ainda o segundo país da UE onde a idade mediana mais aumentou. Nada disto aconteceu de repente.

Apesar disso, chegámos a 2026 com 70% das residências sénior analisadas num estudo recente sem vagas disponíveis. Em 2025, um quarto individual custava, em média, 1921 euros por mês, e quase 70% das instituições analisadas tinham listas de espera. Para demasiados pensionistas e famílias, a dignidade na velhice passou a depender da capacidade financeira dos filhos, das poupanças acumuladas ou, simplesmente, da sorte de encontrar uma vaga.

Acompanho a política portuguesa desde muito novo e não me recordo de ver o envelhecimento transformado, de forma persistente, numa verdadeira prioridade nacional. Temos energia política para reformas laborais, leis da nacionalidade, digitalização das provas escolares e sucessivas polémicas do dia. Mas onde está o grande debate nacional sobre como queremos envelhecer? Onde estão os compromissos para daqui a dez, 20 ou 30 anos?

A responsabilidade não é apenas de quem governa. Também é de quem é governado. A política responde, inevitavelmente, às prioridades que uma sociedade lhe exige. Talvez devêssemos perguntar por que razão conseguimos discutir durante dias futebol, treinadores, a continuidade de Ronaldo na selecção ou as férias de um primeiro-ministro, mas raramente exigimos aos partidos que expliquem como pretendem cuidar de milhões de portugueses que envelhecem.

Vivo na Noruega há mais de duas décadas e sou vice-presidente de um município de média dimensão desde 2019. Nem Portugal é tão mau como muitas vezes o descrevemos nem os países nórdicos são perfeitos. A Noruega também enfrenta falta de profissionais, pressão financeira e enormes desafios nos cuidados de saúde. Mas há uma diferença essencial: planeia-se.

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Na Noruega, sabe-se que já em 2030 haverá mais idosos do que crianças. A resposta começou muito antes de 2030 chegar. Há anos que Estado e municípios adaptam habitação, urbanismo, serviços domiciliários, prevenção, tecnologia, residências assistidas e instituições para quem necessita de cuidados permanentes. A prioridade é permitir que as pessoas permaneçam em casa, com apoio, durante o maior tempo possível, reservando os cuidados residenciais para quem deles realmente necessita. E, no internamento de longa duração, a contribuição do utente é calculada em função do rendimento.

Claro que a Noruega dispõe de recursos que Portugal não tem. Mas essa explicação é demasiado confortável. Política não é apenas saber quanto dinheiro existe. É decidir antecipadamente onde o aplicar, o que priorizar e que sociedade se quer construir.

Seguro recordou que aqueles de quem hoje temos de cuidar criaram filhos, construíram o país e cuidaram das gerações que se seguiram. Tem razão.

Os nossos pais e avós merecem mais do que listas de espera, respostas improvisadas e uma fatura que muitas famílias não conseguem pagar. Merecem visão, planeamento e escolha política. Merecem envelhecer com dignidade.

E convém não esquecer uma coisa: se tivermos sorte, os idosos de amanhã seremos nós.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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5 pensamentos sobre “Portugal sabia que ia envelhecer, porque não se preparou?

  1. Os problemas eco-nómicos são antes de mais problemas eco-lógicos e eto-lógicos.
    Mas hoje dá-se um fenómeno que de lógico pouco tem, mas muito de “nómico” (ou cómico), pois chama-se às faculdade de economia “Business Schools of Economics”, e assim como por artes mágicas, a importância ontológica da “arte do economês-inglês-americanês” sobrepõe-se a toda a ciência e capacidade de entendimento da realidade física, biológica e objectiva…
    Portanto, é continuar a queimar euros e as florestas e as reservas ecológicas… isto é progresso e gestão, economia e literacia financeira!

  2. E para irem desbastando a “peste grisalha” tratam de impingir vacinas Pfizer contra a COVID a toda a gente com mais de 60 anos.
    No interior, onde a malta se vê grega para conseguir uma consulta médica, até telefonam. E só chegar Setembro. Para isso já há recursos.
    Depois, de entre os que ainda caem na esparrela, e vê los ser dizimados nos meses seguintes. Felizmente vai sendo cada vez menos os que ainda vão nisso.
    Vão ver se o mar da Kraken.

  3. Tudo isto é verdade. Mas convém lembrar que quem governou este país nestas úktimas décadas, foram fundamentalmente o PS, PSD e CDS. Proposta no Parlamento não faltaram. Faltou, foi vontade política para encaminhar os recursos para onde a sociedade precisa deles e não para salver bancos, comprar material de guerra, apoiar grupos económicos que apresentam lucros obscenos, etc. E convém lembrar também que partidos de esquerda, em especial o PCP nunca se cansou de apresentar soluções para este e outos problemas sociais, encontrando sempre as maiorias certas para passarem ao lado. Mais vale tarde do que nunca este alerta do PR, mas infelizmente não é previsível que se queira arrepiar caminho. Os velhos vão continuar a ser a “peste grisalha” como descaiu um notável do PSD nos tempos sinistros da troika.

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